Consciência limpa

   


 A chaleira apitava. Desliga-a e põe-se a passar o café. Três colheres bem cheias de pó e duas de açúcar (demerara, pois contém mais nutrientes). Feito o café, prepara o achocolatado do caçula (duas colheres bem generosas num copo de leite de amêndoas).

    A família encontrava-se reunida à mesa para o café da manhã, coisa raríssima com essas rotinas cada vez mais sem pé nem cabeça. Leva o café, entrega o achocolatado para o caçula, afaga-lhe os cabelos e pensa: “o Luquinhas vai dar um belo rapaz”. Vira-se e encaminha-se para a cozinha. Uma voz chega-lhe pelos ombros:

    — Lurdes, hoje a senhora dá uma geral, sim?

    — Sim, dona Márcia — responde, já da cozinha.

    Começa o serviço. Primeiro, lavar os banheiros. Depois, varrer e passar pano em todos os cômodos. Por fim, preparar o almoço.

    Está a limpar o banheiro quando percebe uma movimentação anormal na água da privada. “Estranho”, pensa, “deve ser alguma obra aqui perto”. Apura os ouvidos para algum barulho, mas nada: o Condomínio das Flores é um recanto de paz e tranquilidade.

    Quando está varrendo o chão da sala, percebe que de fato algo anormal está acontecendo. Observa as estantes: os mini-cactos de dona Márcia estão dando pequenos pulos desordenados como se estivessem num trio elétrico. Aos poucos, começa a sentir um tremelique que começa pelos próprios pés e sobe pelo corpo. Não há dúvidas: o chão está tremendo.

    Procura dona Márcia.

    — Dona Márcia, a senhora está sentindo esse tremor?

    — Não há de ser nada, Lurdes. No Brasil não tem terremoto.

    — Verdade.

    Está passando o pano quando o tremor se intensifica ligeiramente: agora é possível ver partículas de pó que se desprendem do teto, dos móveis e das paredes.

    Dona Márcia aparece:

    — Lurdes, está havendo uma orientação de segurança para que saiamos de casa. Apenas uma formalidade, como em tantos outros incidentes menores. Enquanto isso, a senhora vai terminando de dar uma geral, tudo bem?

    — Tudo bem, dona Márcia.


    Duas horas depois, os bombeiros entram no prédio em ruínas. Arrombam a porta do apartamento de dona Márcia. Não conseguem acreditar no que veem.

    As estantes estão organizadas, os móveis em seus lugares, o piso, um brinco – e com cheirinho de lavanda. A única coisa que denuncia uma quebra na normalidade são dois sacos de lixo (100 litros) e algumas irregularidades na superfície das paredes.

    Da cozinha, emerge um cheiro de feijoada e também dona Lurdes, entre indignada e bem-humorada:

    — Menino, não podia ter batido na porta não? Lá vem mais prejuízo pra dona Márcia. Olha só, tem um bolinho de goiaba e café aqui na cozinha, sirvam-se à vontade. Eu vou indo que já deu minha hora e o 387 demora.

    Retirou-se, levando consigo os dois sacos de lixo. Um era de entulho, o outro, de reciclagem. Os patrões tinham consciência ambiental.


Pintura: Enterro na Rede, Candido Portinari, 1944

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