Perséfone
Como posso fazer isso se só a vi com um modesto sorriso sem dentes em algumas fotos? E todo mundo sabe que é difícil se manter genuíno e confortável em fotos. Mas pelo seu jeito tímido, sua postura meio entortada, como quem não sabe o que fazer com o corpo, e seu sorriso inexplicavelmente igual em todas as fotos, ouso interpretar que você, assim como eu, prepara momentaneamente um personagem para a câmera, olha pra lente e pensa: ninguém vai saber o que eu estava pensando quando olhei pra essa lente; ninguém nunca sabe o que os outros pensam ao tirar fotos, e tampouco alguém tem interesse em perguntar; nem sequer eu mesma vou saber o que pensei.
Por que isso tudo importa? Importa porque eu acho que, por esses escassos traços, descobri que nós temos (ou tivemos) muito em comum. Um rosto fora do padrão de beleza e uma mãe superprotetora. Como a sua mãe entrou nessa história? Porque ela comenta as mesmas coisas que a minha nas suas fotos (e não é "coisa de mãe": é "coisa de mãe superprotetora". Consigo farejar o medo e a ansiedade há quilômetros). Foi só agora, depois de muitos anos quebrando a cabeça (figurativa e literalmente), que cheguei à conclusão de que esses fatores moldam – e muito – a personalidade de uma pessoa. Pois bem. Acho que tivemos experiências em certo grau parecidas e que isso moldou nossa vida emocional.
Mas olhando seu rosto nas fotos, vejo como que um eu do passado. Porque pra mim as experiências foram extremas a ponto de eu querer jogar essa desgraça toda na privada e dar descarga. Esse é o primeiro estágio, o da raiva inicial. Depois você tem que processar essa merda toda, não adianta. Só assim você consegue seguir em frente. E, no momento, estou nesse caminho. Você ainda não está porque, até agora, a água não bateu na bunda, sofreu apenas umas leves oscilações, mas depois voltou a acalmar, a ponto de você pensar: é, tá tudo bem. Mas você está se enganando: não tá tudo bem. Debaixo dessa água calma tem um tsunami em formação. Ele vai nascer em você e você é a única que pode criar suas capacidades pra sobreviver a ele. Você pode receber ajuda (apesar de negá-la durante muito tempo, afinal "não há nada errado"), mas a única pessoa que pode tomar as decisões para transformar a sua vida em realmente sua é você. Tudo o que o mundo colocou dentro de você até hoje vai um dia explodir, e você precisa criar a força (que brota justamente dos sentimentos viscerais como a raiva inicial) para se salvar.
Acredito que o único jeito de nós ganharmos algum poder sobre nossas vidas e corpos é reconhecendo que não somos o que acontece conosco.
Por exemplo, se alguém a humilha publicamente, e, a partir disso, você passar a se fechar em si mesma com medo de que isso se repita, você tende a justificar esse comportamento dizendo que "é tímida" ou "antissocial", quando na verdade essas são apenas reações defensivas que você não só normaliza, mas também incorpora à sua noção de identidade. E aí o que acontece? Você abraça o trauma que lhe foi imposto e constrói cuidadosamente um ego em torno de valores criados para impedir, a todo custo, o enfrentamento da dor. Você convence sua consciência de que aqueles são os seus valores.
As coisas que acontecem conosco moldam as nossas vísceras, os nossos princípios e valores intrínsecos, tão intrínsecos que é o nosso próprio corpo que sinaliza se estamos vivendo de acordo com eles ou não. Você tem crises de saúde que começam como um golpe e somem no dia seguinte? Tem alguma ideia de por que a sua imunidade está tão doida? É porque ela não consegue protegê-la de si mesma. É um auto-ataque: os seus princípios viscerais estão atacando esse ego que foi detalhadamente construído para reassegurá-la constantemente de que tudo está sob controle.
Eu sei disso tudo apenas observando o seu olhar, que também foi o meu olhar, e vendo nele o seu ego, que também foi o meu ego. E eu tenho certeza de que minha interpretação está correta, porque quem me diz isso são as minhas vísceras.
Quando você olhar a dor nos olhos, você vai perceber que o olhar dela é límpido e honesto, e que ela é a única arma que a vida lhe dá para lutar até o fim.
Pintura por Antonio Veronese



Esplêndido!!!
ResponderExcluir